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segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Vivendo no Corvo.

Reproduzo com a devida autorização um texto da professora Telma Ferreira, que lecionou no Corvo, no ano lectivo de 2010/2011, uma Ribatejana de gema.
  
  
Vivendo no Corvo

Sou continental, ribatejana de gema e cheia de orgulho. Jamais me esquecerei das minhas origens, mas há muito que me rendi aos Açores. Foi neste arquipélago que decidi viver, assim me deixem... habituei-me ao som do mar, ao verde resplandecente, às gentes simples, à falta de agitação.
Passados 2 anos na ilha de São Jorge, que me encheu as vistas do verde intenso e me viciou nas tradições e costumes açorianos, mudei-me para o Corvo por um ano. Fui com sacrifício, pensei que a vida estava mais uma vez a pôr-me à prova, que não era justo, mas não iria ceder, e o amor à profissão falou mais alto que as limitações que me impunham outros conterrâneos açorianos em pintar de preto e branco a ilha mais pequena dos Açores.
Colegas de viagem nem por isso animavam o cenário e eu estava irremediavelmente sozinha…mais uma vez! Lembro-me que chegamos todos com um sentido de missão e em poucos rostos reflectia alegria, estava assustada! A chegada revelou-se pior que a partida e eu só pensava que tinha chegado ao fim do mundo, pois nem casa havia em que me pudesse alojar. A simpatia de uma colega fez-me esquecer a falta de táxis e o carro novo que não justificava transportar…mais uma vez estava a adiar a minha vida!
Fiquei num quarto onde permaneci por todo o ano lectivo, tinha por companhia uma corvina “sem papas na língua” com quem simpatizei de imediato. No entanto, era tudo muito estranho para mim e depressa fiquei com excesso de informação acerca das várias limitações da ilha… mas será que não há nada bom?! Pior é que todos os avisos eram bem mais simpáticos do que poderia supor.
Excesso de trabalho para ocupar a cabeça, mas pouco para fazer para me distrair do trabalho! Como sempre acontece quando me sinto triste, a primeira reacção é fechar-me sobre mim mesma e desconfiar de tudo e todos, não saí nas primeiras semanas e pensava que qualquer coisa seria melhor que o mísero Café que me apresentavam e as escassas “regalias” existentes. Para mim aquilo estava a ser uma pena a cumprir completamente exilada! Trabalho e mais trabalho, quase nem tinha tempo para respirar e o grupo de pessoas com que me relacionava resumia-se aos colegas de trabalho que estava farta de ver todos os dias, mas vendo bem…numa ilha com 400 habitantes dificilmente me escapava quem quer que fosse, não conhecias os nomes, mas reconhecia os rostos. E eu que sempre me julguei saloia, achava que aquilo começava a ultrapassar as minhas capacidades mentais! Contudo, eu sabia que nem que as lágrimas fossem de sangue, não ia desistir!
Comecei por sair a medo, estudando o que me rodeava e se a mim não me surpreendia, confesso que será preciso ter muita imaginação. E é pela imaginação que tudo começa….
A pouco e pouco fui-me introduzindo na terra, misturando-me com as gentes que da adversidade fizeram convicção, que das dificuldades enfrentaram a estranheza do mundo e se orgulham do pedaço de chão que lhes coube em sorte… amar com convicção, fazer pelo coração de gostar tão calorosamente e de receber quem não conhecem, na dureza dos corações para onde temos de desbravar caminho. Dizem que os corvinos são desconfiados…talvez sejam, acima de tudo acho que não gostam da falta de humildade, que não gostam que maltratem a sua ilha, aquela que escolheram ficar e os que não ficaram na sua lembrança a levaram.
Em jeito de brincadeira, com os meus próprios familiares, dizia que para sitio pior não poderiam ter-me mandado, mas que ainda que percebendo as muitas condicionantes da ilha, eu gostava de estar ali. Todos reclamávamos pelo que não podíamos fazer pelo que não havia… não há cinema, não bares, não há uma discoteca (pelo menos com esse nome), não há estradas para percorrer, e nem há assim tantos sítios para visitar….mas há imaginação, e alguém me disse que quando não há, arranja-se! E arranjou…devo a esta ilha muitos dos meus bons amigos, daqueles que nunca esquecerei, daqueles que não quero perder, daqueles mesmo a sério… devo a esta ilha uma família de adopção (logo eu que nunca fui dada a essa coisa de amor e carinho), recordações fantásticas e aventuras que não me canso de contar. As lágrimas que chorei à chegada, são muito mais sentidas à partida. Vim embora com vontade de ficar e com o secreto desejo que o destino me devolva aquele ponto de terra e àquelas gentes que admiro pela lealdade com que se agarram ao chão. E porque a palavra saudade para mim já não é a preto e branco, mas tem sabor a chuva, porque “há gente que fica na história da gente”… eu prometo que volto e voltarei sempre, porque no Corvo eu já fui feliz!!!

1 comentário:

  1. Adorei ler este texto, que reflecte tudo aquilo que sempre me foi dito sobre a ilha do Corvo. Era, ainda, bebé quando aí morei com os meus pais. Ainda, hoje, a minha mãe sente saudades da bondade e do carinho das pessoas...

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