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domingo, 30 de outubro de 2011

Como Gonçalo Tocha vê o Corvo...

"Eu não faço ainda ideia do que é o Corvo"
  
   O Corvo nunca esteve tão perto. E ao mesmo tempo continua tão longe. Assim está a ilha açoriana para quem nunca a visitou, mas também já pôde ver «É na Terra Não É na Lua», o filme de Gonçalo Tocha que integra a Competição Internacional do DocLisboa 2011. Este retrato belíssimo do ponto mais ocidental da Europa foi visto na passada terça-feira no Grande Auditório da Culturgest, numa sala esgotada. E vai ser visto novamente neste sábado, desta vez no Pequeno Auditório, que esgotou logo no início da semana.

«Havia muita curiosidade sobre o filme, sobre a ilha do Corvo, sobre um filme tão longo sobre uma ilha tão pequena. As pessoas estavam curiosas», comentou Gonçalo Tocha em conversa com o Cinebox entre as duas sessões. Esta presença no Doc é «o seguir do caminho que o filme tem feito». Exibido em vários festivais, de Vancouver a Locarno (onde teve uma Menção Honrosa), «É na Terra Não É na Lua» é o primeiro filme português na Competição Internacional do Doc em cinco anos. «Agora está tudo em aberto», diz o realizador.

São três rápidas horas de uma viagem feita por uma pessoa a filmar e por outra a gravar o som. É o Corvo, os seus 440 habitantes, as suas paisagens, os seus animais, os seus visitantes, as suas histórias e mitos, os seus hábitos e modos de vida - está lá tanto; e é também a experiência daquelas duas pessoas, Gonçalo Tocha e Dídio Pestana, a fazerem o filme sobre a ilha.

Gonçalo Tocha volta a fazer a sua segunda longa-metragem documental sobre as ilhas - o também muito bem aceite «Balaou» data de 2007. E foi logo a seguir que aconteceu a oportunidade de encetar este percurso que «É na Terra Não é na Lua», é no Corvo, onde ele nunca tinha ido, como tanta outra gente que sabe daquela ilha nunca foi «àquele sítio que é quase um outro mundo». E na ilha «há uma noção de que o Corvo é lido por muita gente, que é dos sítios mais mitificados, onde pouca gente vai, que é um paraíso perdido».

«O Corvo está cheio de ficção. Mas isso agrada-me», admite o realizador assumindo que a sua intenção «não era tentar descobrir a verdade», mas «era jogar com todas as imagens e tentar integrá-las». «Não há história do Corvo», explica sobre uma constante exploração. «Tudo o que encontro quando vou lá filmar são camadas de realidade que ultrapassam os preconceitos sobre o Corvo». «Eu não faço ainda ideia do que é o Corvo», assume Gonçalo Tocha garantindo que «ainda existem tantas realidades diferentes» e que «todas essas visões fazem [elas mesmas] parte da história do Corvo».

Foram 200 horas de filmagens, 300 horas de gravações de som feitas em três viagens à ilha em que não se passava um dia sem filmar. E mais de dois anos a fazer a edição, num total de quatro anos de dedicação: «Não tinha produção, não tinha dinheiro, mas tinha tempo e capacidade para fazer esta aventura, sem pensar no futuro. Deixei que as coisas fluíssem e as coisas foram-se fazendo desta maneira tão simples, como é trabalhar num livro.»

Gonçalo Tocha está agora a «tomar conta deste filme», trabalho que «não é menor» do que foi fazê-lo, mas «ainda não há data prevista para a estreia» comercial. «Estou a fazer tudo para estar em sala. A acontecer será para a primeira metade do ano», revelou o realizador que filmou tanto, mostrou imenso, mas deixa também ainda outro tanto para que se descubra. «Cabe também às pessoas fazer o resto da viagem. É essa a intenção.» Porque, não se pense que se fica a conhecer o Corvo; fica-se, sobretudo, a saber o que se desconhece.

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